Relógios moleculares universais: estudo identifica mecanismos comuns do envelhecimento em mamíferos

  • 27/05/2026
(Foto: Reprodução)
Estudo com humanos e animais mapeia mecanismos comuns do envelhecimento Adobe Stock Pesquisadores identificaram assinaturas moleculares do envelhecimento e da mortalidade compartilhadas entre camundongos, ratos, macacos e humanos, em um dos maiores estudos já realizados sobre envelhecimento biológico. A pesquisa integrou mais de 11 mil transcriptomas — análises da atividade dos genes — de mais de 25 tecidos diferentes e revelou que processos como inflamação, disfunção mitocondrial e alterações metabólicas aparecem de forma consistente em diferentes espécies. Os cientistas desenvolveram “relógios transcriptômicos”, modelos capazes de estimar idade biológica e risco de mortalidade a partir da expressão gênica. Segundo os autores, os modelos conseguiram prever efeitos de intervenções relacionadas à longevidade, doenças crônicas e processos de rejuvenescimento molecular. O trabalho, intitulado “Universal transcriptomic hallmarks of mammalian ageing and mortality”, também identificou genes associados ao envelhecimento e à mortalidade, incluindo CDKN1A, LGALS3 e GPNMB, além de sugerir que diferentes partes do organismo envelhecem em ritmos distintos. Agora no g1 Inflamação e mitocôndrias aparecem como pilares do envelhecimento As análises mostraram que os processos mais associados ao envelhecimento envolvem inflamação, resposta imune, sinalização por interferon e perda progressiva da função metabólica e mitocondrial. As mitocôndrias são como pequenas usinas de energia dentro das nossas células. Quando elas funcionam pior, o organismo tende a ter mais dificuldade para produzir energia, controlar a inflamação e manter o equilíbrio e o metabolismo equilibrado, explica a endocrinologista e professora da UNIFESP Carolina Janovsky. Segundo os pesquisadores, genes relacionados à respiração celular, fosforilação oxidativa e metabolismo energético diminuíram de forma consistente com a idade em múltiplos tecidos e espécies. Ao mesmo tempo, genes ligados à inflamação e à senescência celular (estado em que a célula para de se dividir permanentemente após sofrer danos ou estresse) aumentaram progressivamente. Entre eles estão CDKN1A, LGALS3 e CASP1, associados a dano celular, parada do ciclo celular, apoptose e inflamação sistêmica. Os autores afirmam que os resultados reforçam a hipótese de que o envelhecimento envolve ativação crescente de programas inflamatórios acompanhada de perda gradual da eficiência metabólica e mitocondrial. Janovsky destaca que os resultados reforçam a importância de uma alimentação menos inflamatória para envelhecer melhor. Mas nenhum alimento sozinho rejuvenesce o corpo ou desliga o envelhecimento. Padrões alimentares ricos em alimentos naturais e pobres em ultraprocessados estão associados a um menor risco de doenças crônicas e um melhor envelhecimento. “O que faz diferença é o padrão alimentar mantido ao longo dos anos. E quando nós falamos em dieta menos inflamatória, não estamos falando de uma dieta da moda ou algo que seja muito novo. É o que a gente chama de comida de verdade”, afirma. O arroz e feijão, junto com legumes, saladas, azeite e uma boa proteína protegem muito nosso corpo, destaca a médica. “Menos ultraprocessados, menos açúcar, menos embutidos, mais comida de verdade, que inclui fibras vegetais, proteínas de qualidade e gorduras boas. Esse é um caminho simples que é possível e é baseado em ciência”, defende Janovsky. Evidências científicas também levam a comunidade médica a acreditar que alguns vírus facilitar a inflamação, como o vírus do herpes zoster, acrescenta a médica. Dessa forma a vacinação seria uma prevenção contra a inflamação crônica. Além disso, estudos recentes evidenciam que esse vírus também pode ser um fator protetor contra a demência. Pesquisa analisou mais de 11 mil amostras O estudo integrou dados de: 4.539 amostras de roedores; 6.626 amostras de primatas; 26 tecidos; 9 intervenções biológicas; 96 fontes de dados. Os pesquisadores utilizaram transcriptomas de: camundongos; ratos; macacos cynomolgus; humanos. Também foram incluídos modelos experimentais envolvendo: restrição calórica; exercício; dietas ricas em gordura; rapamicina (medicamento originalmente descoberto em bactérias e desenvolvido inicialmente como imunossupressor para evitar rejeição em transplantes de órgãos); acarbose (medicamento usado principalmente no tratamento do diabetes tipo 2, que faz com que a glicose entre mais lentamente na corrente sanguínea); canagliflozina (medicamento usado para diabetes tipo 2, que atua fazendo com que parte da glicose seja eliminada pela urina, ajudando a reduzir os níveis de açúcar no sangue); síndrome de progeria (doença genética rara que provoca envelhecimento acelerado do organismo ainda na infância e associada principalmente a complicações cardiovasculares); deficiência do gene Klotho (ocorre quando há redução ou perda da atividade do gene responsável por produzir a proteína Klotho, molécula associada à regulação do envelhecimento, metabolismo e manutenção de diferentes tecidos do organismo) “Relógios” estimam idade biológica e risco de mortalidade Os cientistas desenvolveram modelos capazes de prever: idade cronológica; idade biológica; mortalidade esperada. O relógio cronológico apresentou correlação de 0,94 com a idade real dos organismos analisados. Segundo os autores, os modelos transcriptômicos apresentam vantagens importantes porque utilizam genes funcionalmente conhecidos e podem ser aplicados em diferentes tecidos e tipos celulares. A equipe também criou relógios específicos para diferentes módulos biológicos, permitindo medir separadamente: envelhecimento inflamatório; envelhecimento metabólico; envelhecimento mitocondrial; envelhecimento ligado à cromatina; envelhecimento relacionado à matriz extracelular. Os pesquisadores afirmam que o envelhecimento não ocorre de forma uniforme no organismo e que diferentes sistemas celulares podem envelhecer em velocidades distintas. Restrição calórica reduziu idade molecular Os relógios transcriptômicos mostraram que diferentes intervenções afetam sistemas biológicos específicos. Nos animais submetidos à restrição calórica, houve redução da idade transcriptômica, principalmente em módulos ligados ao metabolismo energético e à função mitocondrial. A intervenção aumentou genes relacionados a: respiração celular; metabolismo de lipídios; metabolismo de aminoácidos; fosforilação oxidativa. Já modelos inflamatórios induzidos por lipopolissacarídeo (LPS) provocaram forte aumento da idade transcriptômica inflamatória. Modelo de envelhecimento acelerado revelou impacto metabólico Os pesquisadores também estudaram camundongos deficientes em Klotho, proteína ligada à regulação metabólica e à longevidade. Os animais apresentaram: aumento da idade transcriptômica; alterações metabólicas profundas; forte impacto em vias mitocondriais e energéticas. Segundo os autores, o modelo sugeriu que algumas formas de envelhecimento podem ser predominantemente metabólicas, enquanto outras são mais inflamatórias. Assinaturas do envelhecimento apareceram em diferentes tipos de dano celular Os cientistas observaram que diferentes formas de dano celular reproduziam padrões semelhantes aos do envelhecimento natural. As alterações mais comuns incluíram: aumento de inflamação; ativação de resposta ao interferon; ativação de genes de estresse; redução do metabolismo energético. Segundo os pesquisadores, os resultados sugerem que diferentes formas de dano convergem para mecanismos moleculares semelhantes de deterioração celular. Biomarcadores também se associaram à saúde humana Os pesquisadores utilizaram dados do UK Biobank para verificar se os genes associados à mortalidade em animais também tinham relação com saúde humana. As proteínas derivadas dos genes CDKN1A e LGALS3 foram associadas a: maior mortalidade; pior estado geral de saúde. Segundo os autores, isso sugere que os biomarcadores identificados em roedores e primatas podem ter relevância clínica em humanos. Estudo aponta possibilidade de medicina de precisão do envelhecimento Os autores afirmam que os relógios transcriptômicos podem ajudar a: medir envelhecimento biológico; avaliar terapias antienvelhecimento; investigar mecanismos de longevidade; monitorar intervenções farmacológicas e dietéticas. Segundo os pesquisadores, a abordagem modular pode permitir, no futuro, terapias mais direcionadas para diferentes componentes biológicos do envelhecimento. As informações suplementares do estudo destacam que os biomarcadores transcriptômicos podem funcionar tanto como ferramentas independentes quanto em conjunto com relógios epigenéticos e proteômicos. Os autores reconhecem, porém, limitações do trabalho, incluindo: caráter observacional de parte das análises; heterogeneidade entre bancos de dados; diferenças técnicas entre experimentos; necessidade de estudos adicionais em populações humanas maiores.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/05/27/relogios-moleculares-universais-estudo-identifica-mecanismos-comuns-do-envelhecimento-em-mamiferos.ghtml


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