Quem tenta agradar todo mundo geralmente se torna invisível no mercado
30/06/2026
(Foto: Reprodução) Divulgação VCA
KÊNIA CRISTINA
Empresas que não definem um posicionamento claro frequentemente acabam disputando atenção apenas por preço, reduzindo sua autoridade, valor percebido e conexão emocional com o cliente.
Segundo Kênia Cristina, mentora e consultora de negócios com atuação em mentalidade, posicionamento, liderança e vendas, um dos maiores desafios das empresas atualmente não está necessariamente na qualidade de seus produtos ou serviços, mas na dificuldade de comunicar de forma clara quem são, o que representam e qual valor entregam ao mercado.
Em um cenário em que consumidores recebem milhares de estímulos diariamente, muitas empresas acabam se tornando apenas mais uma opção entre tantas disponíveis. Possuem qualidade técnica, experiência e estrutura, mas não conseguem construir uma percepção diferenciada perante seu público.
Na avaliação da especialista, isso acontece porque muitas marcas ainda operam sem um posicionamento definido. "O mercado dificilmente valoriza empresas que não conseguem comunicar claramente sua identidade e propósito", afirma.
Para Kênia, o excesso de negócios tentando agradar todos os públicos gera um efeito contrário ao desejado: a perda de relevância. Quando uma empresa não define sua identidade, tende a entrar em uma disputa baseada exclusivamente em preço, tornando-se facilmente comparável aos concorrentes.
"Nesse cenário, o cliente deixa de perceber diferenciais relevantes e passa a tomar decisões cada vez mais racionais e financeiras", explica.
A especialista destaca que posicionamento vai muito além de elementos visuais. Não se resume a um logotipo, identidade visual ou presença digital organizada. Trata-se da percepção que uma marca consegue construir na mente das pessoas.
Empresas bem posicionadas transmitem identidade, coerência e direção. Conseguem fazer com que o cliente compreenda rapidamente quem são, o que representam e por que são diferentes. Essa percepção influencia diretamente a forma como o mercado enxerga o valor da marca.
Segundo Kênia Cristina, o cérebro humano cria associações emocionais constantemente. A maneira como uma empresa se comunica, atende, se apresenta e conduz a experiência do cliente pode despertar sensações relacionadas à confiança, autoridade, exclusividade ou insegurança.
Por esse motivo, a percepção frequentemente exerce influência maior do que o próprio preço. Marcas fortes constroem conexões emocionais por meio da coerência entre comunicação, ambiente, atendimento, experiência do cliente e comportamento da liderança.
"Cada detalhe comunica. Desde a linguagem utilizada até a forma como a empresa responde a um problema ou conduz uma situação de conflito", observa.
Outro aspecto destacado pela especialista é a relação entre posicionamento e comportamento de consumo. De acordo com ela, toda marca comunica emoções, valores e percepções que tendem a gerar maior identificação com determinados perfis comportamentais.
Uma empresa com posicionamento mais estratégico, sofisticado e orientado para performance, por exemplo, tende a atrair consumidores que valorizam crescimento, autoridade, diferenciação e resultados. Já marcas com uma comunicação mais acolhedora e relacional costumam gerar maior conexão com públicos que valorizam proximidade, segurança e pertencimento.
Isso não significa que uma empresa venda exclusivamente para um perfil específico, mas que pode direcionar sua comunicação de forma mais estratégica para públicos com maior alinhamento emocional à sua proposta de valor.
Nesse contexto, a metodologia DISC também pode ser utilizada como ferramenta de apoio à comunicação e ao posicionamento das marcas. A análise considera quatro fatores predominantes de comportamento: Dominância, Influência, Estabilidade e Conformidade.
Segundo Kênia Cristina, compreender esses perfis permite desenvolver mensagens mais assertivas e alinhadas às características predominantes do público-alvo.
Perfis dominantes costumam responder melhor a comunicações objetivas, orientadas para resultados, liderança e autoridade. Perfis influentes tendem a valorizar reconhecimento, inspiração, relacionamento e experiências emocionais.
Já perfis estáveis geralmente buscam segurança, acolhimento, previsibilidade e confiança. Enquanto isso, perfis conformes ou analíticos costumam se conectar com informações mais detalhadas, coerentes, técnicas e fundamentadas.
"Quando a empresa compreende essas diferenças, deixa de produzir uma comunicação genérica e passa a construir uma percepção mais estratégica", destaca.
Para a especialista, um dos erros mais frequentes entre as empresas é a tentativa de replicar modelos de concorrentes acreditando que isso gera relevância. No entanto, marcas memoráveis costumam se destacar justamente pela autenticidade e pela clareza de sua identidade.
Nesse processo, o branding exerce papel fundamental. Trata-se da construção da percepção, do significado e da conexão emocional que uma marca estabelece junto ao seu público. Envolve não apenas comunicação, mas também experiência, comportamento, posicionamento e relacionamento.
Uma marca forte não busca necessariamente agradar a todos, mas sim ser reconhecida, admirada e valorizada pelas pessoas certas. Quando existe clareza sobre o posicionamento e sobre o branding da empresa, torna-se mais fácil alinhar atendimento, ambiente, comunicação e experiência de forma consistente.
Segundo Kênia Cristina, essa coerência fortalece a autoridade da marca, aumenta a identificação do público e amplia a percepção de valor — um dos ativos mais importantes para a sustentabilidade de qualquer negócio.
Para a especialista, empresas que tentam ser tudo para todos frequentemente acabam se tornando esquecíveis. Já aquelas que compreendem sua identidade, seus diferenciais e a experiência que desejam proporcionar conseguem construir algo que vai além das vendas: relevância.
"Em um mercado cada vez mais saturado de informações, as pessoas não se conectam apenas com produtos ou serviços. Elas se conectam com significado, autenticidade e pertencimento. E talvez esse seja um dos maiores diferenciais competitivos da nova economia", conclui.
Kênia Cristina é mentora e consultora de negócios, palestrante, especialista em comportamento humano, análise comportamental DISC, posicionamento estratégico e vendas, atuando no desenvolvimento de líderes, equipes e empresas em processos de crescimento e alta performance. Coautora no livro “Líderes do Século XXI”.