(Foto: Reprodução) O Brasil é a 'bola da vez' na economia?
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O Brasil voltou aos radares dos investidores estrangeiros. É o que apontam instituições financeiras e analistas internacionais, diante da disparada nos preços do petróleo, alta dos juros e valorização do real.
Um relatório do Bank of America (BofA), uma das principais instituições financeiras americanas, questiona se o país pode ser o "próximo ouro", em referência ao recente bom desempenho do ativo no mercado financeiro global.
Outra análise, do banco de investimentos Goldman Sachs, indica que o Brasil tem se destacado como um dos principais beneficiários da alta nos preços do petróleo provocada pelo conflito entre EUA, Israel e Irã e o fechamento do estreito de Ormuz.
Ao elevar a projeção de crescimento da economia brasileira 1,6% para 1,9% em 2026, o Fundo Monetário Internacional (FMI) também apontou o país como um dos que podem ser favorecidos no curto prazo pela crise, por ser exportador líquido de energia.
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O bom momento do Brasil, aliás, chegou às reuniões de primavera organizadas pelo FMI em Washington D.C. em meados de abril, segundo interlocutores. O colóquio é um dos dois grandes encontros globais anuais da instituição e reúne ministros das finanças, presidentes de bancos centrais, gestores de fundos, executivos e outros participantes do setor financeiro global.
"O Brasil tem sido apontado como um dos locais mais atraentes do mundo emergente", disse Martín Castellano, chefe de pesquisa para a América Latina do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), em entrevista à BBC News Brasil.
"Mas naturalmente, muito se tem discutido sobre as próximas eleições e seus possíveis impactos nas políticas econômicas [do país]."
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Como o Brasil se beneficia da guerra?
Há uma leitura comum de que o Brasil — e a América Latina como um todo — tem se beneficiado de um pano de fundo global positivo para os países emergentes.
À primeira vista, pode parecer contraditório que um conflito com efeitos negativos para a economia mundial favoreça, ainda que marginalmente, nações específicas. Mas há uma explicação clara: o papel desses países, incluindo o Brasil, como exportadores de commodities, especialmente energia.
Com as interrupções na oferta de petróleo e as incertezas nesse mercado provocadas pela guerra no Oriente Médio, os preços do combustível subiram mais de 30% desde o final de fevereiro, antes do início da guerra.
Energia mais cara também encarece transporte, produção industrial e alimentos — especialmente em países dependentes de importações. Por isso, economias importadoras de commodities tendem a ser as mais prejudicadas, enfrentando inflação mais alta, desvalorização cambial e perda de renda.
Para os exportadores de energia ou commodities, porém, o cenário pode ser outro.
No caso do Brasil, que é considerado pelo FMI um exportador líquido de energia — ou seja, vende mais petróleo e derivados ao exterior do que compra — preços internacionais altos significam ganhos maiores. Esse efeito melhora os chamados "termos de troca" (a relação entre preços de exportação e importação), e pode impulsionar o crescimento econômico.
Preços do combustível subiram mais de 30% desde o final de fevereiro, antes do início da guerra.
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Por tudo isso, o FMI considerou em seu relatório Panorama Econômico Mundial (WEO, na sigla em inglês), divulgado em abril, que a guerra deve ter "um pequeno efeito líquido positivo" sobre o Brasil em 2026, elevando o crescimento em cerca de 0,2 ponto percentual.
"É importante destacar também que o Brasil é um dos países com altíssima participação de energias renováveis, o que representa outro fator atenuante", afirmou a vice-diretora no Departamento de Pesquisa do FMI, Petya Koeva Brooks, em um pronunciamento à imprensa durante as reuniões nos EUA na semana passada.
Atraindo investimentos
Para instituições financeiras como o Bank of America (BofA) e o Goldman Sachs, esse cenário também ajuda a consolidar o país como atrativo para investimentos estrangeiros.
Mas além do peso das commodities na economia local, o Brasil se tornou destaque neste momento por conta das altas taxas de juros e o enfraquecimento do dólar.
Segundo o relatório publicado pelo Bank of America (BofA) em 14 de abril, "os investidores seguem confortáveis em manter exposição ao real brasileiro e às ações brasileiras".
A percepção, de acordo com os economistas do BofA, é de que o aumento nas previsões de inflação diante dos impactos da guerra e da alta do petróleo devem manter os rendimentos atrativos, já que o Banco Central pode encontrar mais dificuldades para acelerar o ritmo de cortes de juros.
A avaliação veio após reuniões com clientes em Nova York, às vésperas dos encontros do FMI e do Banco Mundial, que também organiza discussões com investidores todos os anos em abril.
Analistas do Goldman Sachs também apontaram em um diagnóstico de 15 de abril que o Brasil segue sendo um foco interessante para investimentos por conta do impulso das matérias-primas.
O banco afirma, porém, que setores domésticos que vêm sofrendo com a crise global, como os ligados ao crescimento local (bancos, varejo, construção), podem ver sua situação melhorar à medida que os cortes de juros forem aplicados.
Mas a conclusão é positiva. "Na América Latina, o Brasil se destacou como beneficiário da alta dos preços do petróleo", dizem os economistas.
"Com avaliações, em nossa opinião, atrativas em relação ao nível das taxas, e com expectativas de novos cortes na taxa e alta sensibilidade do mercado acionário às taxas de juros, esperamos que as ações brasileiras tenham um desempenho superior", afirma o relatório.
Até 22 de abril, o capital estrangeiro na Bolsa de Valores (B3) somou R$ 64,42 bilhões neste ano, mais que o dobro do registrado em todo o ano de 2025 (R$ 25,47 bilhões), segundo dados da consultoria Elos Ayta.
Isso significa que 61,2% de tudo que entrou na bolsa brasileira em 2026 veio do exterior, uma tendência de elevação do fluxo internacional observada desde 2023.
Mais recentemente, porém, o mercado acionário brasileiro vem atravessando um período de certa turbulência.
O Ibovespa, principal índice da B3, registrou uma desvalorização acentuada de aproximadamente 10 mil pontos em um curto intervalo de tempo, após atingir a máxima histórica em 14 de abril.
Analistas afirmam que o episódio deve ser visto mais como um ajuste típico de fluxo após um período de alta prolongado do que um sinal de alerta estrutural para a economia brasileira.
Segundo um relatório do banco Santander, o movimento de venda de ações recente foi provocado principalmente por rotação global de fluxo, e não por deterioração dos fundamentos domésticos.
Uma estimativa do Instituto de Finanças Internacionais indica ainda que, a cada aumento de US$ 10 no preço do petróleo, o Brasil recebe cerca de US$ 4 bilhões adicionais em entradas de dólares nas contas externas.
"Isso representa aproximadamente 0,2% do PIB em termos de ingresso adicional de recursos", afirma Castellano.
Para o economista e seus colegas do IIF, a alta no preço das commodities também afeta positivamente o crescimento no país.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o índice de evolução do preço médio das matérias-primas disparou desde o início da guerra.
O índice da Sondagem Industrial, que mede a variação do preço das commodities, saltou 10,8 pontos entre o quarto trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2026, passando de 55,3 pontos para 66,1 pontos.
O indicador não ficava tão alto desde o segundo trimestre de 2022, quando o fluxo de comércio global ainda se recuperava dos efeitos da pandemia de covid-19.
O Brasil, que tem uma base de exportações mais diversificada do que outros países da América Latina, se beneficia especialmente desse movimento, diz Martín Castellano.
"Outro fator que considero importante é que a economia brasileira é relativamente fechada, portanto não está tão exposta a choques globais", avalia.
"Além disso, acredito que os investidores entendem que o governo brasileiro lidou bem com o choque das tarifas [impostas pelos] EUA, conseguiu negociar e o impacto foi relativamente limitado", diz Castellano.
Depois de impor tarifas elevadas contra produtos brasileiros — em alguns casos chegando a 40% ou 50%, sob o argumento de desequilíbrios comerciais e questões políticas — o governo de Donald Trump reverteu parte dessas medidas em novembro passado.
Há um temor, porém, de que o governo americano esteja se preparando para anunciar uma nova onda de tarifas, que podem ter o Brasil como alvo mais uma vez.
'A tempestade perfeita' para o real
O momento de crise no Oriente Médio também foi definido como "a tempestade perfeita" para o real pelo pesquisador sênior da Brookings Institution e ex-estrategista-chefe de câmbio do Goldman Sachs, Robin Brooks.
Segundo Brooks, a guerra entre os Estados Unidos e o Irã pode ser o gatilho para uma das maiores valorizações do real dos últimos anos. Em artigo do início de abril, ele projetou que o dólar poderia ficar abaixo de R$ 4,50.
Brooks lembra o que ocorreu em 2022 como um precedente. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o petróleo do tipo Brent subiu 40% no primeiro trimestre e o real se valorizou 20%, tornando-se a moeda de melhor desempenho entre os emergentes.
"Assim que os mercados perceberam que as coisas não iriam sair do controle, o real brasileiro — a personificação de uma moeda de beta alto [ou seja, uma moeda que tende a demonstrar alta sensibilidade aos ciclos econômicos globais e ao apetite por risco] — decolou de forma significativa", aponta Brooks.
Para ele, esse movimento está se repetindo agora.
O real foi a moeda que mais se valorizou em relação ao dólar no mundo em 2026 até o momento. No acumulado do ano, a alta foi de 10,4% até 17 de abril, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta.
Como país exportador e autossuficiente de petróleo, o Brasil tem se beneficiado diretamente da entrada adicional de dólares, o que pressiona a moeda nacional para cima.
O cenário também é reflexo da procura dos investidores estrangeiros pelo país, seja por meio da bolsa de valores ou de títulos de renda fixa, dizem os especialistas.
"O Brasil, assim como vários outros países, busca consolidar o apelo de sua moeda por meio de uma economia bem administrada", aponta Colin Lewis, professor da LSE (London School of Economics and Political Science), no Reino Unido.
Segundo o economista, contribuem para isso outros bons indicadores econômicos atuais do Brasil, tais como um mercado de trabalho aquecido e a previsão de crescimento de 1,9% estimada pelo FMI.
"(O primeiro-ministro britânico) Keir Starmer adoraria ter um crescimento de 2% no Reino Unido", brinca Lewis.
A última previsão do FMI é que a economia britânica deverá crescer apenas 0,8% em 2026, abaixo da projeção anterior de 1,3%.
"O Brasil está bem conectado globalmente e projetando sua imagem como um parceiro comercial confiável e previsível", acrescenta o economista britânico em entrevista à BBC Brasil.
É apenas passageiro?
Mas por quanto tempo esse cenário positivo pode se manter?
Para Martín Castellano, do IIF, o avanço do Brasil em relação à produção de petróleo significa que as altas internacionais no preço da commodity devem continuar a beneficiar, ou pelo menos não afetar intensamente, o país.
O economista destaca a mudança estrutural da última década: "o Brasil era um importador líquido de energia até 2017, mas após mudanças significativas no setor e alterações nas políticas, o país emergiu como um exportador líquido de petróleo bruto".
Em 2024, pela primeira vez na história, o petróleo foi o produto que o Brasil mais exportou, superando até a soja. No ano passado, o feito se repetiu e o país se consolidou como o sétimo exportador do mundo.
No entanto, a indústria nacional importa cerca de 10% da gasolina e até 25% do diesel que consome, por conta da falta de capacidade das refinarias locais.
Ainda assim, os choques causados por variações internacionais no preço dos combustíveis afetam muito menos o país atualmente do que no passado. As exportações também auxiliam no crescimento da economia.
"Analisando todo o contexto global, o Brasil é percebido como uma economia bastante bem administrada, o que indica certa confiança nas mudanças estruturais que vêm ocorrendo internamente", avalia Colin Lewis.
Por outro lado, afirmam os especialistas, uma mudança nas taxas de juros pode sim afastar investidores estrangeiros, apesar de melhorar o acesso doméstico a crédito e aquecer a economia internamente.
Em março, o Banco Central cortou os juros pela primeira vez em quase dois anos, reduzindo a Taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano.
Atualmente, o mercado já espera uma nova redução, possivelmente para 14,5% ao ano.
Outros dois fatores também podem interferir no atual cenário: as eleições presidenciais marcadas para outubro e o preço global dos fertilizantes.
A incerteza em relação ao cenário eleitoral e o futuro das políticas públicas pode afastar alguns investidores, apontam os especialistas.
Após o anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, em dezembro do ano passado, o principal índice da Bolsa brasileira mergulhou em fortes perdas, indicando uma possível aversão ao risco no mercado financeiro brasileiro.
"Lula tem uma bagagem, mas de qualquer forma os mercados já o conhecem", avalia Lewis.
E segundo Martín Castellano, há uma preocupação específica com o futuro das políticas fiscais no país.
"A política fiscal tem sido uma espécie de calcanhar de Aquiles de longa data para a economia brasileira", diz, apontando as mudanças constantes nessa frente e falta de disciplina como motivos que podem afastar investidores.
Além disso, afirma, um aumento brusco no preço global dos fertilizantes pode ter um impacto negativo no setor agropecuário e no custo dos alimentos, neutralizando parte do ganho em outros setores.
O setor dos fertilizantes é visto como um alvo invisível da guerra no Irã, principalmente a ureia, um composto nitrogenado essencial para o cultivo em escala.
Para o Brasil, que tem a cadeia do agronegócio como propulsora da economia e não produz seus próprios fertilizantes, o baque pode ser grande.
"O Oriente Médio fornece aproximadamente um terço das importações brasileiras de fertilizantes nitrogenados. Ao mesmo tempo, o Irã responde por cerca de 20% das exportações brasileiras de milho, deixando a economia vulnerável a potenciais interrupções no fornecimento e no comércio", aponta o relatório do IIF sobre possíveis desdobramentos da crise para o Brasil.