Novos achados arqueológicos podem indicar terreiro de matriz afro-brasileira na futura Estação 14 Bis-Saracura, da Linha 6-Laranja
06/08/2026
(Foto: Reprodução) Obras da estação 14 Bis, da linha 6 laranja do metrô, no sítio arqueológico do Quilombo Saracura, no Bixiga.
Rovena Rosa/Agência Brasil
Novos achados arqueológicos encontrados durante as obras da futura Estação 14 Bis-Saracura, da Linha 6-Laranja, podem ser vestígios de um antigo terreiro, segundo avaliação da pesquisadora Syntia Pereira Alves, doutora em Ciências Sociais e especialista em religiões de matriz afro-brasileira.
Os itens foram localizados entre junho e julho deste ano durante as escavações da estação. O relatório com os detalhes das descobertas foi divulgado na semana passada.
Durante os trabalhos, foram encontrados três alicerces de alvenaria de tijolos maciços. Após uma visita técnica ao local, Syntia avaliou que um "amplo piso de cimento achado no processo de escavação poderia corresponder a um terreiro".
No local dos alicerces, também foram encontrados um martelo fixado no piso, pregos, uma conta verde, quase um quilo de anil (waji, item utilizado em práticas das religiões de matriz afro-brasileira), feixes de madeira, ossos bovinos e suínos, além de fragmentos de ovos de galinha.
Novos achados em obra da Linha 6-Laranja podem indicar antigo terreiro na futura Estação 14 Bis-Saracura
Reprodução
No relatório, a pesquisadora apresenta considerações sobre a disposição dos materiais encontrados. Em relação ao waji, aos ossos de animais e aos fragmentos de ovos, ela afirma que, na tradição do Candomblé, a associação entre o waji e a fauna resultante de oferendas "compõe uma estrutura característica de firmeza, assentamento ou limpeza de solo".
Segundo ela, "o ovo atua frequentemente na neutralização de energias e na consagração de espaços, enquanto os vestígios ósseos indicam a partilha ritual e o oferecimento às divindades".
Sobre os feixes de madeira, Syntia afirma que a presença de varas finas e flexíveis reunidas em grande quantidade indica a possibilidade de se tratarem de um "atori". A peça tem relevância ritualística no Candomblé e em outras tradições de matriz africana, simbolizando proteção, purificação e equilíbrio espiritual.
A especialista aponta ainda que o martelo encontrado integra o arsenal sagrado ou ferramenta de assentamento de algumas deidades afro-brasileiras, especialmente o orixá Ogum. Os pregos, segundo ela, são elementos sagrados associados principalmente aos orixás Ogum e Exu, utilizados para ancoragem energética, firmezas, feitura de caminhos e rituais de proteção.
Atualmente, as obras da Estação 14 Bis-Saracura estão com 15,11% de execução.
O que diz a concessionária
Em nota, a Linha Uni informou que segue as orientações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em relação aos novos achados arqueológicos.
Segundo a concessionária, os materiais serão registrados, catalogados e recolhidos para compor o acervo do sítio arqueológico.
A empresa informou ainda que, durante o período de verificação, as atividades foram temporariamente pausadas no trecho do canteiro de obras onde os objetos foram encontrados e afirmou que mantém diálogo constante com os órgãos responsáveis e com a comunidade local sobre os trabalhos realizados na área da estação.
O que diz o coletivo Mobiliza Saracura Vai-Vai
Em nota divulgada nesta quinta-feira (6), o coletivo Mobiliza Saracura Vai-Vai afirmou que os novos vestígios reforçam a importância da futura Estação 14 Bis-Saracura como a primeira estação metroferroviária musealizada do Brasil.
Segundo o movimento, os novos achados incluem alicerces, pedaços de paredes, pisos e objetos relacionados ao cotidiano do território e a práticas religiosas, como fragmentos de cerâmica, cerca de um quilo de waji, conchas marinhas e ossos de animais.
O coletivo destaca ainda que o relatório elaborado pela empresa de arqueologia aponta uma cavidade estruturada no solo que, de acordo com a consultora Syntia Alves, pode corresponder a uma estrutura de fundamento de um terreiro de Candomblé.
Na manifestação, o Mobiliza Saracura Vai-Vai afirma que os novos achados conferem materialidade a um "espaço sagrado permanente" e defende a preservação do sítio arqueológico.
O grupo também diz que o sítio não é responsável pelo atraso da obra, atribuindo a demora, entre outros fatores, às condições geológicas do terreno, e cobra a divulgação de um cronograma específico para a estação, além de informações sobre a fiscalização, o acompanhamento e a guarda dos novos materiais encontrados.
O movimento também pede esclarecimentos do Iphan, do governo do estado e de outras autoridades sobre os investimentos destinados à preservação, exposição e devolução dos achados à comunidade.
Obra da futura Estação 14-Bis/Saracura andou só 10%