‘Não conseguia me olhar no espelho’, diz mulher trans atacada com garrafa em Rosário, no MA
26/07/2026
(Foto: Reprodução) Mulher trans atacada com garrafa quebrada em Rosário relata dor e trauma
Guida Calvet, de 24 anos, ainda sente dores pelo corpo e tenta lidar com os traumas psicológicos após ser atacada por um homem com uma garrafa de cerveja quebrada. O crime aconteceu no último domingo (19), em Rosário, a 69 km de São Luís. A motivação ainda é investigada.
Segundo Guida, ela estava em um bar com amigos quando foi chamada pelo suspeito para conversar perto da praça. A jovem afirma que não houve discussão ou desentendimento. Quando se preparava para ir embora de bicicleta, foi surpreendida pelas agressões.
O suspeito, identificado como Alberto Felipe Caires Mendonça, de 20 anos, foi preso preventivamente na quinta-feira (23). A Polícia Civil do Maranhão investiga o caso como tentativa de homicídio qualificado.
Guida sofreu ferimentos na cabeça, no rosto e no tórax. Ela passou duas noites no hospital e registrou a ocorrência na delegacia. De acordo com a polícia, o ataque só terminou após a intervenção de uma pessoa que presenciou o crime.
“O meu braço ainda não me deixa dormir direito. Ainda sinto dor constante”, contou Guida em entrevista à TV Mirante.
Mulher trans atacada com garrafa quebrada em Rosário relata dor e trauma
Reprodução/TV Mirante
Vítima afirma que não houve discussão
Guida relatou que o suspeito aparentava estar tranquilo durante a conversa. Segundo ela, nada indicava que seria atacada momentos depois.
“Ele estava aparentemente normal, super amigável, sabe? A gente não teve nenhuma discussão, não teve briga”, afirmou.
De acordo com a vítima, o homem se aproximou quando ela estava de saída e usou uma garrafa quebrada para golpeá-la.
A mãe de Guida, Marlene Esteves, contou que estava em casa, mas sentia que algo não estava bem. Ao chegar ao hospital, encontrou a filha ferida e a sala de atendimento com muito sangue.
A jovem afirma que chegou a ter medo de sair de casa e dificuldade para se olhar no espelho. O apoio da mãe e dos amigos tem ajudado durante a recuperação.
“Eu estava com medo até de sair de casa. Eu não conseguia me olhar no espelho, sabe? Traumatizada. Vivi de novo, sabe? Sobrevivi. Deus me deu uma vida de novo. Eu espero que a Justiça seja feita e que ele pague pelo que fez", disse a vítima.
Suspeito alegou embriaguez e impulso
Segundo a Polícia Civil, a vítima foi atingida na cabeça e no rosto com uma garrafa de cerveja quebrada, na Praça da Matriz.
Divulgação/ Polícia Civil
Segundo o delegado regional de Rosário, Adriano Mendes, o homem admitiu ter agredido Guida. Em depoimento, ele alegou que houve provocações e afirmou que estava embriagado e agiu por impulso.
A Polícia Civil, no entanto, considera que a violência empregada colocou a vida da vítima em risco.
“As investigações demonstram que o homicídio apenas não se consumou por intervenção de terceiros, porque o autor quebrou uma garrafa de vidro que estava em sua mão e golpeou a vítima em partes vitais do corpo, como a face, a cabeça e o tórax”, disse o delegado.
A prisão preventiva foi solicitada pela Polícia Civil e autorizada pela Justiça. Após os procedimentos na delegacia, Alberto Felipe foi encaminhado ao sistema prisional, onde permanece à disposição da Justiça.
Em nota enviada à TV Mirante, a defesa de Alberto Felipe Caires Mendonça informou que não vai se manifestar.
Polícia não identificou motivação ligada à identidade de gênero
A TV Mirante questionou a Polícia Civil sobre a tipificação do caso. A corporação respondeu que, até o momento, a investigação não identificou elementos que indiquem que o crime tenha sido motivado pela identidade de gênero de Guida.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil no Maranhão (OAB-MA), Erik Moraes, defendeu que uma possível motivação transfóbica seja investigada.
“É muito importante a investigação sobre a possibilidade de transfobia, pois ela altera completamente o enquadramento penal, as regras processuais e o endurecimento da pena”, afirmou.
Segundo a Associação Maranhense de Travestis e Transsexuais, dez agressões contra pessoas trans foram registradas no estado entre dezembro de 2025 e junho de 2026.
“A transfobia é algo estrutural, assim como o racismo, né?”, afirmou a presidente da associação, Andressa Sheron. Ela também defendeu o enfrentamento à violência e às violações de direitos da população trans.
A Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular informou que desenvolve projetos voltados à promoção dos direitos da população LGBTQIA+.