Justiça manda afastar administradora de irmandades católicas por desvio de mais de R$ 12 milhões
21/01/2026
(Foto: Reprodução) Justiça manda afastar administradora de irmandades católicas por desvio de mais de R$ 12 milhões
A Justiça determinou o afastamento de Brígida Rachid José Pedro da administração de quatro entidades católicas por suspeita de desvio de mais de R$ 12 milhões. A decisão foi da juíza Renata de Freitas Ongaratto, da 2ª Vara Especializada em Organização Criminosa da Comarca da Capital.
A magistrada ainda aceitou a denúncia do Ministério Público contra a ex-administradora por apropriação indébita e lavagem de dinheiro e, a partir disso, Brígida se torna ré.
A mulher comandava há 15 anos quatro irmandades católicas, que são grupos formados por pessoas da sociedade civil para preservar o patrimônio católico, através da administração e manutenção desses espaços.
Juridicamente, funcionam como associações civis sem fins lucrativos. Mas o esquema que o Ministério Público acaba de denunciar trabalhava com fé para obter lucros milionários, segundo a investigação.
Brígida Rachid José Pedro herdou dos pais, entre 2011 e 2012, duas irmandades. A São Braz e a Boa Morte e, de acordo com o MP, colocou em prática um esquema para embolsar parte do dinheiro das associações religiosas.
Segundo a investigação, às vésperas de assumir as irmandades, Brígida Rachid criou a Support Serviços Empresariais, que o Ministério Público descreve como uma "empresa de fachada". A firma declara um capital social de apenas R$ 2 mil e não tem nenhum funcionário registrado.
Justiça manda afastar administradora de irmandades católicas por desvio de mais de R$ 12 milhões
Reprodução/TV Globo
O MP aponta que Brígida Rachid contratava a própria empresa para gerir os imóveis, cobrando valores milionários das irmandades. Os serviços eram simulados ou inexistentes.
Segundo a denúncia, entre 2014 e 2024, Brígida se apropriou de mais de R$ 12,7 milhões. Enquanto o patrimônio pessoal de Brígida crescia, o patrimônio sagrado carecia do básico.
A Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte, na Rua do Rosário, no Centro do Rio, está fechada ao público e o prédio está com a parede sem reboco, com manchas de sujeira e umidade, além de pichações. A construção é de 1785.
No endereço cadastrado na empresa Support, na Rua Miguel Couto, também no Centro, funciona uma loja de conserto de roupas.
No ano passado, a igreja tentou destituir Brígida em uma outra ação na Justiça, mas não conseguiu.
A decisão de agora inclui o depoimento de um irmão de Brígida, Aloysio Rachid José Pedro, que afirma que a irmã geria a irmandade com uma grande concentração de poder para “ficar rica”, estimando seu patrimônio atual em meio bilhão de reais, em contraste com o patrimônio familiar anterior.
Além disso, a investigação apontou que a acusada recebia aluguéis diretamente em espécie na sacristia da igreja e celebrava contratos de locação em seu próprio nome sobre imóveis das irmandades, conforme e-mails de inquilinos presentes dos autos.
A Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público contra Brígida Rachid José Pedro. A 2ª vara, especializada em organização criminosa, determinou seu afastamento cautelar imediato de todas as suas funções administrativas e eclesiásticas.
Brígida também está proibida de acessar as sedes, arquivos e contas bancárias das instituições.
Em um dos trechos da decisão, a juíza Renata de Freitas Ongaratto afirma que “a manutenção da acusada no cargo de gestão perpetuaria a dilapidação patrimonial demonstrada na tabela de desvios anuais, que não cessou nem mesmo com o início das investigações, em 2018.”
Ela também diz que “há risco iminente de dilapidação irreversível de patrimônio histórico e religioso, conforme relatos de abandono material dos templos, fechamento de igrejas centenárias e deterioração de objetos sagrados”.
Depois da decisão da Justiça, a Mitra Arquidiocesana nomeou um interventor para as entidades, o frei Ramon Assis da Silva como administrador provisório para tentar salvar o que resta do patrimônio histórico e religioso.
A TV Globo não teve retorno da defesa de Brígida.