Faraó dos bitcoins: Fantástico tem acesso exclusivo a depoimentos sobre destino de fortuna de bilhões de reais

  • 06/09/2026
'Faraó dos Bitcoins' diz que fortuna trancada em cofre da PF pode pagar credores Cinco anos depois da prisão do "Faraó dos Bitcoins", uma pergunta ainda intriga milhares de investidores enganados: onde foi parar o dinheiro? O Fantástico teve acesso, com exclusividade, aos depoimentos de Glaidson Acácio dos Santos e da mulher e sócia dele, Mirelis Diaz Zerpa. 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Diante da Justiça, os dois contaram como funcionava o negócio fraudulento que movimentou bilhões de reais. E uma dúvida continua no centro da investigação: o que vai acontecer com a fortuna ainda guardada em criptomoedas? Um dispositivo do tamanho de um pen drive guarda um dos maiores mistérios financeiros do país. Dentro dele estão as chaves digitais de uma fortuna ainda cercada de dúvidas. O aparelho está trancado em um cofre da Polícia Federal. E só um homem sabe a senha para acessá-lo: Glaidson Acácio dos Santos. Preso na Operação Kryptos, em 2021, o "Faraó dos Bitcoins" responde na Justiça Federal por organização criminosa e crimes contra o sistema financeiro, entre eles, oferta irregular de investimentos, operar instituição financeira sem autorização e gestão fraudulenta. Os depoimentos colocam lado a lado as versões de Glaidson e de Mirelis Diaz Zerpa, mulher e sócia do empresário. Uma história de ascensão, poder e ruína. Juíza: "Poderia declarar o montante?" Glaidson: "Não, Vossa Excelência, por..." Juíza: "Tá, o senhor vai usar o direito ao silêncio? Não vai declarar?" Glaidson: "Minha integridade... minha integridade física." Foi em Cabo Frio, no Rio de Janeiro, que Glaidson fundou a G.A.S. Consultoria e Tecnologia Ltda., uma empresa que atraiu milhares de pessoas em busca de grandes lucros com criptomoedas. A oferta era sedutora: 10% de rendimento todos os meses.uíza: "Como é que o senhor fazia essa operação de pagar 10%?" Glaidson: "Como eu captava esse recurso de várias pessoas, Vossa Excelência, eu me transformo numa 'baleia'." No mercado de moedas digitais, "baleia" é quem tem uma quantidade muito grande de uma determinada criptomoeda, suficiente para influenciar o preço. Glaidson explica: "Então, como 'baleia', eu consigo manipular outras criptomoedas. E entro em contato com outras 'baleias' e vamos falar o seguinte: 'Ó, você aposta na queda, alavanca 10 vezes que nós vamos derreter o preço. Vamos despencar o preço de uma determinada criptomoeda'." Juíza: "Mercado, né? O mercado..." Glaidson: "É, mas assim, o mercado... O mundo é capitalista, Vossa Excelência." Juíza: "É." Glaidson: "No mercado, uns riem, outros vendem lenços. Então..." Juíza: "Tem quem ganhe e tem quem perca, né?" Glaidson: "Tem uns que ganham, mas nem todo mundo vai ganhar." Em outro momento do depoimento, Glaidon afirma: "Não são 10 milhões, nem 50 milhões. São 200, 300 milhões de dólar numa..." O Ministério Público Federal questiona: "Mas não tem uma ilegalidade nisso, né?" E ele responde :"Não, não é ilegalidade, né? É falta de ética." Os recursos eram captados a partir de milhares de contratos. Alguns de pequeno valor. Glaidson afirma: "Eram contratos 'individual'. Como diz aquele velho ditado, não sei se o senhor já ouviu: 'De grão em grão, a galinha enche o papo'." Dinheiro que circulava sem controle das autoridades. Segundo o especialista Felipe D'Urso: "O mercado cripto ficou desregulado por um grande período de tempo. No início do Bitcoin em 2008 até 2022, nós não tínhamos uma regra específica pra esse mercado." Glaidson relata: "Os meus funcionários iam, através de helicóptero, até São Paulo, levavam o recurso em espécie dos clientes, e as pessoas lá de São Paulo transferiam pra minha carteira da G.A.S." Segundo a Polícia Federal, a rede informal de investimentos movimentou mais de R$ 38.223.489.348,97. No tribunal, o Faraó dos Bitcoins confirmou seu poder na G.A.S. "Idealizador da empresa, fundador da empresa, presidente da empresa, gestor da empresa, responsável da empresa." A investigação aponta que ele não agiu sozinho. Em 2024, quando era considerada foragida pela Justiça brasileira, Mirelis Diaz Zerpa foi presa em Chicago. Um ano depois, deportada para o Brasil. Ela afirmou: "Meu trabalho sempre foi estudar criptomoedas, multiplicar o dinheiro em criptomoedas e fazer trading de criptomoedas." Trade é a compra e venda de moedas digitais para lucrar com a variação de preços. Mirelis também declara: "Ele era quem sempre se comunicava com os clientes." Para o Ministério Público Federal, Mirelis Zerpa integrava o comando do esquema e responde por crimes financeiros e organização criminosa. Ao depor, a venezuelana negou as acusações. O Ministério Público Federal pergunta: "Então a senhora agia como se fosse uma empregada do Glaidson, não é isso?"" Mirelis responde: "Exatamente." E acrescenta: "O que ele fazia comigo? 'Mirelis, você multiplica esse dinheiro e me paga uma porcentagem desse dinheiro'." Quando questionada sobre o controle das entradas de clientes e investidores, respondeu: "Nunca cuidei da administração disso." Sobre o processo, afirmou: "Com todo respeito, para mim foi como ler um livro de ficção científica." Um dos capítulos dessa suposta ficção tem data, hora e endereço. Agosto de 2021. Glaidson estava preso no Brasil e teve as contas bancárias bloqueadas. Mesmo assim, os negócios da G.A.S. não pararam. O Ministério Público Federal identificou o acesso a um computador em Kissimmee, na Flórida, exatamente onde Mirelis Zerpa estava. Segundo o MPF, 4,5 mil bitcoins deixaram a conta. Na época, o equivalente a mais de R$ 1,06 bilhão. Questionada se havia feito algum resgate de criptomoedas após a operação, Mirelis respondeu: "Com meu dinheiro, sim. " Ao ser perguntada se incluía dinheiro da empresa, respondeu: "Não, da empresa não. Eu nunca retirei dinheiro da empresa." A lista de credores de Glaidson Acácio dos Santos, elaborada pelos administradores judiciais da massa falida da G.A.S. Consultoria, passa de 77 mil empresas e pessoas físicas. Para se ter uma ideia, mais de cinco mil municípios brasileiros não têm uma população desse porte. A dívida também tem dimensões faraônicas: chega a quase R$ 3 bilhões. Uma das vítimas contou que confiou suas economias ao grupo chefiado por Glaidson. Por segurança, prefere não se identificar. "Tinha vários amigos que faziam esse investimento. E eu vi que estava dando certo, o pessoal recebendo em dia..." Ele acreditou nas promessas do Faraó. "Vendi carro, vendi moto, peguei dinheiro emprestado, tanto empréstimo consignado quanto pessoal. Foram mais de 500 mil reais. Mais de meio milhão. Sei que foi um dinheiro muito alto para o valor que eu recebo." Mesmo antes da prisão de Glaidson, o Fantástico acompanhava o caso. Após as denúncias reveladas em 2021, o Faraó dos Bitcoins usou as redes sociais para tentar tranquilizar os investidores. "Nós temos mais de 200 CNPJs. Não afeta em nada! Então, por que o espetáculo? Por que o desespero?" "Porque eles falam assim: 'Todo contrato é pra quebrar, pra quebrar, pra quebrar'. Não, o da G.A.S. não é pra quebrar." "O recurso mesmo está fora do Brasil." Quatro anos depois... Juíza: "Então, existe esse dinheiro, sim..." Glaidson: "Tá lá. Tá tudo lá." Nas alegações finais, depois de quase cinco anos de processo, o Ministério Público Federal pediu a condenação de Glaidson, Mirelis e de outras 15 pessoas acusadas de integrar o grupo. Se condenados, eles podem pegar mais de 37 anos de prisão. "Essas acusações são inverdades ao meu respeito. Eu não cometi crime algum dessa acusação, no meu ponto de vista. No meu ponto de vista foi algo muito precipitado da parte da paralisação da atividade da minha empresa", diz Glaidson. Glaidson Acácio dos Santos também é réu em outros processos, entre eles um por homicídio e outro por tentativa de homicídio. Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, ele teria participado dos crimes ocorridos em 2021 contra concorrentes da G.A.S. Consultoria. Wesley Pessano foi a vítima do homicídio. Cinco anos depois, a família aguarda o julgamento de Glaidson. Os casos ainda vão a júri popular. Glaidson segue preso na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná. Mirelis Zerpa está presa preventivamente no Rio de Janeiro. Em nota, a defesa de Glaidson Acácio dos Santos afirma que ele "é inocente das acusações feitas pelo Ministério Público Federal" e que "as atividades da G.A.S. não configuravam crime contra o sistema financeiro nacional". Os advogados sustentam que a interrupção dos pagamentos aos clientes "ocorreu em cumprimento a uma ordem judicial". E afirmam ainda que o edital com a lista de credores da empresa "contém equívocos e está sendo contestado na Justiça". Sobre os processos por homicídio e tentativa de homicídio, a defesa afirma que não há provas contra Glaidson e diz confiar na inocência dele. Os advogados explicam ainda que Mirelis não tinha atuação na G.A.S. e que "figurou como sócia por ser esposa de Glaidson". A defesa de Mirelis Diaz Zerpa declarou, em nota, que ela não integrava a estrutura administrativa da empresa. Também afirmou que, após a prisão de Glaidson, ela foi orientada pelos advogados da empresa a manter os pagamentos aos clientes, inclusive com a venda de bitcoins que estavam nas carteiras da G.A.S. Sobre a movimentação de bitcoins após a prisão de Glaidson, os advogados negam que Mirelis tenha ficado com R$ 1 bilhão. E dizem que os bitcoins foram movimentados para devolver aos clientes valores que lhes pertenciam. Em depoimento, a própria Mirelis apontou pistas para um dos enigmas desta investigação: o paradeiro do patrimônio digital do Faraó dos Bitcoins. Ela afirmou: "Para fazer uma transação de criptomoeda, você precisa ter uma carteira de cripto. Eu não tinha acesso a absolutamente nada." É a chamada "cold wallet" ou, em português, carteira fria. A mesma mencionada no início desta reportagem. Ela recebe esse nome porque fica desconectada da internet. Uma das formas mais seguras de guardar ativos digitais. Segundo o especialista Felipe D'Urso: "Para acessá-la, você tem uma senha e dentro dela pode ter inúmeras senhas armazenadas, que são as chamadas chaves privadas." Juíza: "A minha pergunta é: existe quantia vultosa nessa cold wallet?" Glaidson: "Existe." Juíza: "Dá pra pagar todos?" Glaidson: "Dá. Dá. Dá." D'Urso observa: "Ele tinha o poder sobre essas criptomoedas através dessas senhas. Então, caso venha a ocorrer qualquer coisa com ele e ele não deixe essas senhas com alguém, essas criptomoedas podem ser perdidas para sempre." Uma fortuna escondida como se fosse o tesouro de um verdadeiro faraó. Um desafio para as autoridades. E um tormento para as vítimas deste império que ruiu. Por fim, Glaidson afirma: "A senha, agora de cabeça, eu não sei. Mas tá lá. Tá tudo lá." GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.

FONTE: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/09/06/farao-dos-bitcoins-fantastico-tem-acesso-exclusivo-a-depoimentos-sobre-destino-de-fortuna-de-bilhoes-de-reais.ghtml


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