Casos de câncer de mama podem chegar a 3,5 mi por ano até 2050; mortalidade cai em países ricos e dispara em nações pobres

  • 03/03/2026
(Foto: Reprodução)
Radiologista usa lupa para examinar mamografias em busca de câncer de mama. AP/Damian Dovarganes/Arquivo O câncer de mama deve permanecer como o tumor mais comum entre mulheres nas próximas décadas —e de forma desigual. Um novo estudo publicado na revista científica The Lancet Oncology projeta que o número de casos anuais deve saltar de 2,3 milhões em 2023 para 3,5 milhões em 2050. As mortes podem aumentar 44% no período, chegando a 1,4 milhão por ano. Mas o crescimento da doença não será uniforme. Enquanto países de alta renda reduziram em quase 30% a taxa padronizada de mortalidade por câncer de mama desde 1990, nações de baixa renda viram essa taxa praticamente dobrar no mesmo período. A análise reúne dados de 204 países e faz parte do Global Burden of Disease 2023, o maior levantamento epidemiológico do mundo. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Desigualdade que custa anos de vida Embora países de baixa e média renda concentrem cerca de 27% dos novos casos globais, eles respondem por mais de 45% dos anos de vida saudável perdidos pela doença —indicador que combina morte precoce e incapacidade. Em entrevista ao g1, a professora assistente da Universidade de Washington, pesquisadora do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) e coautora sênior do estudo Lisa M. Force afirma que o dado é um sinal claro de disparidade. “O número desproporcional de anos de vida saudável perdidos sugere que mulheres nesses locais têm maior probabilidade de morrer prematuramente do que se estivessem em países de alta renda”, diz Force. Segundo ela, embora o estudo não tenha analisado individualmente cada sistema de saúde, a diferença aponta para falhas estruturais. “Serviços de saúde precisam ser disponíveis, acessíveis e financeiramente viáveis para reduzir o impacto do câncer de mama.” Países ricos reduzem mortes; países pobres avançam A taxa de mortalidade padronizada por idade —indicador que permite comparar países com estruturas etárias diferentes— caiu quase 30% nas nações ricas nas últimas três décadas. Já em países de baixa renda, praticamente dobrou (crescimento de 99,3%). Jonathan Kocarnik, pesquisador do IHME e coautor do estudo, também falou à reportagem. Segundo ele, múltiplos fatores devem explicar essa divergência. “É razoável esperar que fatores como menor disponibilidade de rastreamento, tratamento e serviços de apoio tenham contribuído para essa diferença”, diz. Nos países de maior renda, programas organizados de rastreamento, diagnóstico precoce e acesso a terapias mais modernas ajudaram a reduzir mortes, mesmo com incidência elevada. Casos crescem entre mulheres mais jovens Outro dado que chama atenção é o aumento da incidência entre mulheres de 20 a 54 anos. Desde 1990, a taxa nesse grupo subiu 29%, enquanto permaneceu relativamente estável entre mulheres com 55 anos ou mais. O estudo não investigou as causas específicas desse aumento, mas mudanças nos padrões reprodutivos, obesidade, alterações metabólicas e maior detecção podem estar envolvidos. Os pesquisadores estimam que 28% dos anos de vida saudável perdidos globalmente estejam associados a seis fatores de risco potencialmente evitáveis, como: consumo elevado de carne vermelha, tabagismo, glicemia alta, obesidade, álcool, sedentarismo. Kocarnik afirma que políticas públicas voltadas a produtos reguláveis tendem a ser mais factíveis. “Intervenções sobre fatores como tabaco e álcool costumam ser mais diretas do que enfrentar obesidade ou glicemia elevada”, diz. Ainda assim, os autores ressaltam que prevenção isolada não é suficiente. Mesmo com políticas eficazes, milhões de mulheres continuarão desenvolvendo a doença. O estudo em números 2,3 milhões de casos em 2023. 3,5 milhões projetados para 2050. 764 mil mortes em 2023. 1,4 milhão projetadas para 2050. +29% de aumento em mulheres de 20 a 54 anos desde 1990. 28% da carga global ligada a fatores modificáveis. Projeções e limites As estimativas indicam que, se as tendências atuais se mantiverem, muitos países não alcançarão a meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de reduzir em 2,5% ao ano a mortalidade por câncer de mama até 2040. Force ressalta que as projeções consideram tendências demográficas, fatores de risco e padrões históricos de mortalidade, mas não incorporam explicitamente possíveis inovações futuras em rastreamento ou tratamento. Além disso, os autores reconhecem que lacunas em registros de câncer, especialmente na África Subsaariana e em partes do Sul da Ásia, aumentam a dependência de modelos estatísticos. Brasil no cenário O Brasil ocupa posição intermediária no panorama global. Entre 1990 e 2023, a taxa padronizada de incidência aumentou 43%, enquanto a taxa padronizada de mortalidade permaneceu praticamente estável, com variação de 2,6% no período. Em 2023, o país registrou 62,3 mil novos casos e 23,9 mil mortes por câncer de mama. Diferentemente dos países de alta renda, que reduziram a mortalidade em quase 30% nas últimas três décadas, o Brasil ainda não conseguiu converter o avanço do diagnóstico em queda consistente nas mortes. Se as projeções globais se confirmarem e os casos continuarem a crescer até 2050, o desafio para o país deixa de ser apenas ampliar o rastreamento. O ponto central passa a ser garantir que o aumento dos diagnósticos seja acompanhado por acesso rápido ao tratamento e redução das desigualdades regionais. No cenário traçado pelo estudo, o futuro do câncer de mama não depende apenas de novas terapias, mas da capacidade dos sistemas de saúde de fazer com que o lugar onde a mulher vive não determine suas chances de sobreviver à doença.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/03/03/casos-de-cancer-de-mama-podem-chegar-a-35-mi-por-ano-ate-2050-mortalidade-cai-em-paises-ricos-e-dispara-em-nacoes-pobres.ghtml


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