Artesã envenenada com mercúrio: MPPE devolve inquérito e pede novas diligências à Polícia Civil
12/08/2026
(Foto: Reprodução) Artesã filma aluna colocando substância em garrafa e denuncia ter sido envenenada
O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) devolveu à Polícia Civil o inquérito sobre o caso da artesã Denny Cardoso, envenenada com mercúrio por meses enquanto trabalhava num projeto social no Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), no Recife (relembre o caso abaixo). Assim, o órgão solicitou novas provas e análises para complementar as investigações, iniciadas há mais de um ano.
A decisão foi tomada em 31 de julho, dez dias depois que a corporação anunciou a conclusão do inquérito, indiciando por tentativa de homicídio a principal suspeita, Maria Aparecida Rodrigues de Araújo, filmada pondo uma substância na garrafa da vítima (veja vídeo acima). Para a polícia, a mulher praticou o crime por ciúme de um namorado. A defesa diz que ela não se lembra de nada.
✅ Receba as notícias do g1 PE no WhatsApp
A TV Globo teve acesso à requisição assinada pela promotora Rosângela Furtado Padela Alvarenga, da 28ª Promotoria de Justiça Criminal, que analisa o caso. No documento, ela considera ter visto "lacunas relevantes" no processo e, por isso, não seria viável oferecer a denúncia contra a mulher indiciada.
Entre essas lacunas, conforme a requisição, está a realização de uma perícia nos vídeos gravados pela vítima que mostram a suspeita despejando um produto na água. Segundo a promotora, o celular da artesã não havia sido apreendido em mais de um ano de inquérito. O g1 procurou a Polícia Civil para comentar sobre o requerimento, mas, até a última atualização desta reportagem, não obteve resposta.
"As mídias contendo as gravações em vídeo efetuadas pela vítima — que constituem a prova direta central da conduta executória — não foram apreendidas formalmente, tampouco acostadas aos autos ou submetidas à perícia forense, situação que gera severo risco de nulidade por quebra da cadeia de custódia digital", argumenta a promotora.
O requerimento afirma, ainda, que a promotoria não recebeu o depoimento de uma testemunha considerada essencial: o homem citado nos autos como namorado da suspeita e amigo da vítima, que já foi ouvido pela polícia (saiba mais abaixo).
O MPPE também pede que a polícia realize as seguintes diligências, no prazo de 60 dias:
fazer a apreensão formal do celular ou dispositivo da vítima no qual os vídeos foram gravados;
encaminhar o dispositivo para o Instituto de Criminalística (IC) para fazer a extração forense dos arquivos originais, atestar a autenticidade deles e transcrever o conteúdo;
expedir ofício à direção do Hospital Oswaldo Cruz requisitando as imagens das câmeras de circuito interno do local;
apresentar o depoimento da testemunha que falta e promover outras diligências "pertinentes ao completo esclarecimento da dinâmica" da ocorrência.
Homem citou ciúmes
A TV Globo também teve acesso ao depoimento do ex-namorado da suspeita, que pediu para não ser identificado. No relato, ele disse que conhece Denny e Maria Aparecida há cerca de dez anos e afirmou ter percebido um ciúme da investigada em relação à amizade que ele tinha com a artesã. O homem também citou uma discussão entre as duas.
"Durante essa discussão, a vítima afirmou à indiciada: 'se você tiver algum problema com seu namorado, resolva com ele', demonstrando ao declarante que o desentendimento também envolvia ciúmes da indiciada em relação ao relacionamento de amizade existente entre a vítima e o declarante", registra o documento.
O homem confirmou que presenciou o momento em que Maria Aparecida presentou Denny com uma garrafa verde, que aparece nas filmagens. Ele também disse ter reconhecido a investigada no vídeo.
Mulher flagrada contaminando garrafa d'água com mercúrio no Recife
Reprodução/WhatsApp
O caso
As investigações duraram mais de um ano. As filmagens foram feitas em junho de 2025 depois que a artesã começou a ter sintomas de intoxicação, como dores abdominais e transtornos neurológicos. As imagens registraram Maria Aparecida colocando um material dentro da garrafa.
Ela aparece cortando um papel com uma tesoura, depositando o conteúdo na água, agitando a garrafa e saindo da sala.
A aluna investigada participava do projeto social Arte na Medicina, que oferece aulas de artesanato para pacientes e familiares num anexo do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, conhecido como Castelinho, no bairro de Santo Amaro, no Centro do Recife. A mulher acompanhava o filho, que fazia tratamento na unidade, e começou a frequentar as aulas há cerca de três anos.
A suspeita é que a artesã tenha sido envenenada por mercúrio de seis meses a até um ano. O caso veio à tona após a própria vítima filmar com um celular escondido, em duas oportunidades, a aluna colocar uma substância em sua garrafa de água.
A garrafa foi encaminhada para perícia, e, dois dias depois, a professora voltou ao curso com outro recipiente idêntico. Segundo ela, a suspeita repetiu o comportamento e voltou a ser filmada. Segundo a professora, foi a própria aluna quem a presenteou com uma garrafa de água, que passou a usar diariamente por cerca de dois meses.
Nesse período, Denny percebeu bolhas na água e um gosto diferente, mas não desconfiou de um problema grave. Com os vídeos, Denny procurou a polícia.
Os laudos periciais apontaram a presença de mercúrio nas duas garrafas analisadas. Exames também detectaram o metal no sangue e na urina da professora. No sangue de Denny, foram encontrados 21 mg — cerca de quatro vezes acima do limite considerado tolerável.
O mercúrio é um metal altamente tóxico, proibido em termômetros no Brasil desde 2019, e pode provocar danos graves ao cérebro, além de atingir órgãos como rins, intestino e pele.
A artesã disse que ainda não conseguiu encontrar profissionais especializados no tratamento de pacientes contaminados por mercúrio.
Desde janeiro, Denny aguardava uma consulta com um neurocirurgião pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para produzir um laudo solicitado pela Polícia Civil sobre as sequelas neurológicas e para dar seguimento ao tratamento.
A defesa dela ingressou na Justiça para tentar garantir esse atendimento. Entretanto, um dia após a divulgação do caso pelo g1, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) agendou a consulta.
VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias