'Affordability': conceito em alta nos EUA e na Europa pode influenciar eleições no Brasil, apontam analistas

  • 18/01/2026
(Foto: Reprodução)
Inflação fecha o ano de 2025 em 4,26% O aumento do custo de vida passou a decidir eleições nos Estados Unidos e na Europa — e pode influenciar também a disputa eleitoral de 2026 no Brasil, avaliam especialistas. O conceito de “affordability”, que mede o quanto a renda dá conta das despesas do dia a dia, ganhou força após a alta da inflação no pós-pandemia. Em torno dessa ideia, o então candidato à prefeitura de Nova York, o democrata Mamdani, construiu sua campanha vitoriosa. A estratégia se espalhou para os campos progressistas no hemisfério norte. O g1 ouviu especialistas para saber se essa tendência será relevante também nas eleições do Brasil em outubro. 🔍Mas afinal, o que é “affordability”? O termo pode ser traduzido para o português como custo de vida. Se refere à capacidade da população custear bens e serviços cotidianos. É um conceito que se relaciona diretamente com a inflação, o índice que mede a diminuição do poder de compra da moeda. “Em palavras mais diretas, é o impacto do custo de vida sobre a decisão de voto. Isso me lembra da frase do estrategista de campanha de Bill Clinton em 1992, que para direcionar a disputa contra George Bush nesse aspecto, disse: ‘É a economia, estúpido’”, explica o doutor e professor de Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB), Carlos Oliveira. 📈 Com a pandemia de Covid-19 e a Guerra da Ucrânia, a inflação teve uma grande alta nesses países. Isso fez com que a população sentisse na prática a diminuição do poder de compra e por isso a palavra ganhou destaque nas últimas eleições. De acordo com o cientista político e analista de Inteligência Qualitativa na Fundação Getúlio Vargas (FGV), Leonardo Paz, isso acontece porque a Europa e os Estados Unidos “são acostumados com uma inflação de 1%". "No ano você nem sente. Quando você pega uma inflação que chega a 8% ao ano, você sente, em dois anos seguidos. A pessoa sente que está conseguindo comprar menos”, afirmou. Ele reforça que o custo de vida está no centro de eleições em democracias ao redor do mundo e deve aparecer também nas campanhas brasileiras. "Eu posso garantir com 100% certeza, e olha que são poucas as coisas que eu posso garantir com 100% de certeza quando dou entrevista, é que esse tema vai ser importante, porque custo de vida é um tema importante de todo país em desenvolvimento”, confirmou o analista. Mulher escolhendo frutas enquanto faz compras no mercado Reprodução/Freepik Pauta central em vitórias de democratas nos EUA Zohran Mamdani toma posse como prefeito em Nova York O Partido Republicano apostou forte em crime, imigração e guerras culturais como forma de mobilizar sua base e conquistar o eleitorado. Os Democratas, por sua vez, deslocaram o foco para a vida cotidiana usando o "affordability" como tema central. Um conceito que conectou temas dispersos como moradia, energia e educação. Em Nova Jersey, a deputada democrata Mikie Sherrill venceu com vantagem confortável a eleição para governadora do estado ao defender temas que tocam diretamente o bolso dos moradores. A campanha de Sherrill destacou propostas para reduzir o custo da energia elétrica e dos serviços públicos, facilitar a oferta de moradia mais barata e apoiar pequenas empresas com menos burocracia e mais crédito. O mesmo aconteceu nas eleições do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, que conquistou eleitores ao centralizar suas pautas em torno de preços de aluguel, escolas de bairro bem financiadas e apoio a pequenas empresas. Por que isso interessa para o Brasil? O Brasil vive uma dinâmica semelhante. A esquerda busca competitividade defendendo temas como a democracia e direitos do trabalhador. Enquanto a direita aposta em segurança pública, costumes conservadores e menor interferência do Estado na economia. Entretanto, os brasileiros percebem um aumento no custo de vida e cobram ações dos representantes que serão eleitos. A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (14) mostra que 61% dos brasileiros acreditam conseguir comprar menos hoje com a renda que recebem, do que a um ano atrás. No caso da classe média, no entanto, que não é tão beneficiada por programas sociais e tende a ser sensível ao impacto da inflação, o tema do custo de vida pode ser decisivo na eleição. Mas isso vai depender da inflação às vésperas do período eleitoral. O cientista político Leonardo Paz explica que a classe média "fica mais espremida" porque "sente mais o aumento dos preços". “Para reforçar esse ponto, os estudos sobre escolha do voto mostram que ‘o bolso do indivíduo’ médio é o grande indutor do voto. Se as pessoas se sentem desoladas por um custo de vida alto, normalmente vão colocar isso no radar, mesmo que seja de maneira automática, sem pensar demais. A solução poderia ser, para essas pessoas, trocar o governo. Quando o dinheiro não é suficiente nem para comer, é muito intuitivo esperar que a mudança de governante seja uma solução”, explicou ele. Esquerda ou direita: quem vai explorar esse tema? No Brasil, o tema do custo de vida, principalmente para as classes mais pobres, já faz parte do cenário eleitoral. Tanto que essa pauta, que era historicamente da esquerda, passou a ser encampada também pela direita. O Bolsa Família, por exemplo, foi uma bandeira eleitoral durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas passou a ser defendida também no mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). “O próprio Bolsonaro, ele encampou o Bolsa Família. Hoje eu acho que nenhum político ganha nenhuma eleição para executivo, dizendo que vai cortar o Bolsa Família. É inviável”, analisou Leonardo Paz. Carlos Oliveira avalia que “se o custo de vida estiver baixo, sem dúvida, ‘affordability’ é um tema de quem busca reeleição. Caso contrário, é da oposição". "Com custo de vida baixo, o governo certamente quererá o tema como central na disputa, quererá ter a hegemonia desse discurso. No fundo, todo grupo político foca o discurso na melhoria de vida das pessoas, tendo as diferenças de como se alcançará isso”, disse. Para o professor, se o governo conseguir comunicar para as pessoas que o custo de vida está mais acessível do que em outras épocas, poderá capitalizar votos para a reeleição de Lula. Caso contrário, “é um argumento certo para a oposição”. Carlos Oliveira ainda acrescenta que se essa for a situação, “a direita está na dianteira deste debate, porque apresenta soluções normalmente mais simples, de mais fácil compreensão". "Quem está no governo, muitas vezes, fica na defensiva, afinal, a sensação de insegurança é sentimento do indivíduo e no contexto do momento. É difícil convencer as pessoas de que a segurança vai bem se elas estão com medo, por exemplo. Portanto, numa resposta curta, tudo vai depender da capacidade de a esquerda ou direita colocar um (custo de vida) ou outro (segurança) tema na cabeça dos eleitores”, afirmou. Segurança pública Por mais que o custo de vida e a economia em geral sejam tópicos relevantes para contar ou tirar votos de um candidato, a segurança pública deve continuar protagonista nos debates. Segundo Carlos Oliveira, isso ocorre porque as pessoas respondem muito a emoções particulares, e a segurança, no Brasil, tende a mobilizar mais. “Para o caso brasileiro, no momento, o custo de vida não me parece o assunto central do debate eleitoral. A disputa, pelo menos por ora, parece se constituir em torno do tema ‘segurança’. Várias pesquisas de opinião mostram que esse tem sido o tema mais preocupante para a maioria da população, e um aspecto muito relevante é ser um problema inerente a todas as classes sociais”, disse.

FONTE: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/01/18/affordability-conceito-em-alta-nos-eua-e-na-europa-pode-influenciar-eleicoes-no-brasil-apontam-analistas.ghtml


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